quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Língua de São Tomé e Príncipe: Crioulo? Dialecto? Ou Português?


O crioulo é uma língua que surge numa situação de contacto. Daí que línguas de contacto resultem dentro de um contexto próprio. Na língua de contacto, a variável espaço tem valor, na medida em que há a deslocação de um povo que se vai juntar a outro.

O «dialecto seria um sistema de sinais desgarrado de uma língua comum, viva ou desaparecida; normalmente, com uma concreta delimitação geográfica, mas sem uma forte diferenciação diante dos outros da mesma origem» ([1]). São também chamados dialectos «as estruturas linguísticas, simultâneas de outra, que não alcançam a categoria de língua» ([2]).

No arquipélago de S. Tomé e Príncipe, achado desabitado, e sem língua própria, foi o português o primeiro idioma que ali se falou, e serviu de base a todos os outros adventícios. Por isso, e com toda a propriedade, se pode dizer que o português é a língua indígena de S. Tomé e Príncipe, desde os fins do século XV ([3]).

Entretanto, poder-se-á questionar se no vapor em que se seguiam os primeiros povoadores iam somente os descobridores ou se no seu interior iam já, também, escravos obtidos algures em África. Se no navio iam escravos africanos, então ao desembarcarem em S. Tomé, os escravos falaram as suas línguas (sendo estes de diferentes partes desse continente), e os europeus (os portugueses) falaram a língua portuguesa. Poder-se-á então concluir que as primeiras línguas faladas em S. Tomé foi o Português e as Línguas Africanas. Se não levavam consigo escravos, então a afirmação em António Ambrósio está correcta.

Até os finais do séc. XIX esta situação manteve-se quer na obra científica e literária do 1º Barão de Água Izé quer na do Visconde de Malanza[i]. Nenhum outro idioma se falava em casa de famílias cultas, embora nativas, de S. Tomé e Príncipe ([4]).

Um outo exemplo comprovativo do uso científico e literário da língua portuguesa em S. Tomé e Príncipe é o artigo POETAS SANTOMISTAS, de José Brandão Pereira. Diz o artculista o seguinte:

Orgulha-se S. Tomé e Príncipe, pode orgular-se de ser a pátria pequenina de alguns escrites e poetas de valor.

Dos primeiros, foi o primeiro, sem dúvida, o bacharel Leandro José da Costa, deputado pelo círculo de S. Tomé e autor de várias obras, entre as quais têm lugar de destaque as Cartas de um viajante em França, publicadas em 1880. Mas é dos poetas que quero falar agora.
Entre estes há três dignos de boa menção: Costa Alegre, Francisco Stockler e Herculano Levy (na altura da publicação deste artigo, ainda vivo).

De Costa Alegre já foram publicadas várias poesias, nomeadamente nesta revista de cultura «O Mundo Português», motivo porque não me alargo mais, por agora, a seu respeito, menos conhecido, creio, é Fancisco Stokler, grande poeta nativo da poesia irónca e filosófica. Stockler era um boémio, rindo sempre e levando a vida pouco a sério, talvez por pensar, como o filósofo, que «a vida é uma comédia para quem sente e uma tragédia para quem pensa». ([5] )

“Definiu-se a si próprio e a sua boémia filosófica esta ordem original:

Sum Fâchico Estoclé
tómá cádjá fé lóçá d’ê,
chimiá báná chimiá café,
fotchi sócu çá di pá dêcê

Pló castigu clupa mun
basta vida cu’n çá nê
cu cuján sê fôgô nê
cu gibéla sê vintém!

Nestas estrofes, para além de uma revelada boémia filosófica, nota-se também alguns traços de ambíguadade. Por exemplo na primeira quadra (vv. 3-4), refere Stockler: Chimiá báná chimiá café/ fotchi sócu çá di pá dêcê. Ou pretendia o sujeito poético dizer que o forte (fóthi) é que era o sítio para onde se devia ir (seguir descendo), com se situasse no sopé de um monte ou taxactivaente o forte ganha na poética stockeriana a dimensão de cadeia – lugar de exclusão, de exílio, de retiro forçado pelas vicissitudes da vida. Entretanto se o verso fosse fótchi sócu sa di pá dêcê tivesse sido grafado fótchi sócu sa di pádicê, daria para melhor enquadramento textual.

Também verificamos, nos dois primeiros versos da primeira estrofe, que o poeta distancia-se do eu poético, utilizando o discurso na terceia pessoa, para, na quadra seguinte, assumir-se como o verdadeiro distinatário intratextual, utilizando o discurso na primeira pessoa.

“Noutro género: duma grande beleza lírica, é a sua poesia Quá mandá bô scá fugi um? (para que foges tu de mim?)”:

Quá mandá bô scá fugi mun?
quá mandá bô bá condê?
chi bô fé áchi pa’n quêcê,
çá máchi cu’n scá lemblá bô.

Ch’in glává bô, quêcê glávu,
pódá póbli pécádô
piá mó Santu Slavadô
pódá San Pédu cu négá Sun.

Máchi boá Dêssu mátá mun
dô quê pena (sé) cu’n çá nê…
(quá) cu’n fé bô, quá cu non tê,
quá mandá bô scá fugi mun ?

Melhó ‘nga môle ũa vê
dô quê óla cu’n plêdê bô!
quá bô tê no mê d’ôbô!
quá mandá bô bá côndê?

Máchi bô lentlá n’ôbô,
máchi cu bô scá fugi mun,
çá machi qu’n scá lemblá bô…

O articulista arrisca uma aproximada e simpática tradução em Stockler: Vamos dar a «tradução», procurar traduzir em rima portuguesa este trecho lírico de Francisco Stockler, ainda que fugindo aqui e ali, forçosa ou forçadamente, mas o menos possível, ao conceito original:

Para que foges daqui?
p’ra que te vais esconder?
se o fazes p’ra te esquecer,
mais me lembrarei de ti.

Se te ofendi, aqui estou
dá perdão ao pecador,
vê o exemplo do Senhor
que as ofensas prdoou.

É melhor a morte, sim,
do que viver a penar…
se fiz mal só por te amar,
porque foges tu de mim?

Mata-me antes (sei morrer
por minhas culpas) sem dó,
porque foges para o óbó,
porque te vais lá esconder?

Para que foges daqui,
p’ra que te vais esconder?
se é para eu te esquecer,
mais me lembrarei de ti…

Contrariamente a Stockler, há autores são-tomenses, seus contemporâneos, que escreveram exclusivamente na Língua Portuguesa – língua do discurso ficial do Estado, da escola, da técnica e da ciência, a primeira a ser falada em S. Tomé e Príncipe, mais uma série de línguas trazidas pelos escravos dos mais variados países d’África. Um desses exemplos é, sem dúvida, Herculano Pimentel Levy, flho duma nativa e do rico proprietário agrícola Salvador Levy, judeu e inglês, nascido em S. Tomé, no ano de 1889.

“Veio para Lisboa educar-se na Escola Académica, regressando à sua terra natal anos depois, rapazote já feito, empregado nas explorações agrícolas de seu pai. Por morte deste e contando já trinta anos, voltou para Lisboa, dedicando-se ao jornalismo primeiro (exercendo mais tarde a sua actividade como secretrário da empresa do Coliseu dos Recreios)”.

Em Herulano Levy há, primacialmente, um lírico apreciável, refere um admirador seu.
E acrescenta: ora vejam este belo soneto ao Ossobó – a ave de magnífica plumagem que anuncia com o seu canto triste a aproximação ou o começo da tempestade:

Nuvens, turbilhonando ao longe do infinito,
extinguiram do sol a explendente feeria…
é um negrume depois, que nem parece dia,
o dia que nasceu, vibrante como um grito!

Já na floresta silva o furacão maldito,
o arvoredo agitando em louca epilepsia,
como alguém que arrancasse à verde ramaria
os ninhos donde sai um pipilar aflito…

Ah! Quem renunciasse à quietação do monge
e fosse a conquistar a força e a beleza
e ser tal qual assim, tão livre, ó natureza!

Tange o sino da Roça…e então, lá muito ao longe,
ensaia o ossobó uma canção dolente
que faz chorar o céu desesperadamente…

E este, titulado “A cascata”, em que nos dá uma nota impressionista e, mais ou melhor que isso: interpretativa, digamos, da psicologia atormentada das Águas de uma cascata da sua terra, a cascata de S. Nicolau:

Água inocente, humilde e tão modesta,
que é brilho e traz oculto o seu esplendor.
Sofreu: mas quis mostrar a sua dor,
e surgiu do mistério da floresta

Surgiu para cair e em cada aresta
da rocha aprumo erguida, com fervor,
rasgar, esfarrapar em espuma o alvor
da sua carne dolorosa e mesta

Santa resignação que em louco inferno
de dor esconde e em prantos se desata…
dor tão viva que é já martírio eterno!

Minha alma a compreende e a retrata
que a poeira de água é bem – altar supemo!
Jesus crucificado na cascata!

Uma síntese lírica perfeita: modelo rematado, em beleza e conceito, da nossa quadra popular:

Queira Deus que nos amemmos
até sermos cinza e pó
e sempe nos projectemos
os dois numa sombra só.

Produto de uma fusão de raças – que incompleta ou imperfeitamente se fundem – filho de um pai que complicava a sua psicologia semita com hábitos e características britânicos, eivado de preconceitos inibitivos, Herculano Levy nunca deixou a sua grande alma chegar à revolta, mas alcançou alturas de reflexiva amargura. Como exemplo, este soneto:

Duas raças se uniram num momento.
que deu esse momento? A estranha dor
de incerteza raça, a cobardia, a horror
dum filho aprisionado ao sofrimento.

Cresceu, porém, num tal deslumbramento,
que olhando o céu em todo o seu esplendor,
num voo intrépido, esacalou a Dor,
nessa busca febril do Pensameno.

Houve uma convulsão, de arrepiar,
no Pai, ao vê-lo assim, transfigurado,
desferindo soluço ao luar…

Anda no céu, de brilho arroxeado,
uma estrela, de mágoa, a cintilar!
é ele, a alma heróica…o renegado!

E, para fechar, um improviso, feito há pouco menos de um ano, quando, gravemente doente, o seu médico e amigo lhe perguntava se era capaz de “fazer versos”.
É noutra modalidade agora: a ironia humorística, que Herculano Levy nos mostra o seu belo espírito:

Amigo, quando eu morrer,
para lá do umbral medonho
do infinito do não-ser,
é este o quadro que eu sonho:

Cemitério. Primavera.
Sobre a campa uma begónia
e este epitáfio: “Quem dera
ter uma noite de insónia!

(José Brandão Ferreira de Mello)

[1] Cunha, Celso; Cintra, Lindley (2000), Nova Gramática do Português Contemporâneo, p.4; citando Manuel Alvar, Hacia los conceptos de lengua, dialecto y hablas. Nueva Revita de Filologia Hispánica, 15: 57, I96I.
[2] Id, p.4., Ibid., p.60.
[3] António Ambrósio, Jornal de Letras nº 182 de Dezembro a Janeiro, de 1986

[4] Idem
[5] Artigo POETAS SANTOMISTAS, de José Brandão Pereira de Mello, in O Mundo Português, p. 222
[i] Informação sobre o Visconde de Malanza


Na base de dados do Genea, aparecem duplicados os nomes dos 11 filhos do 1º Barão, que aparecem também como filhos do pai deste, Manuel da Vera Cruz e Almeida.

Sobre a descendência do 1º Barão, deverão ter em conta isto:Em algumas obras, onde aparece o nome de João Maria de Sousa e Almeida, 1º Barão de Água-Izé, diz-se que teve vários filhos de muitas mulheres das suas Roças: ISTO é falso e não há prova nenhuma de que assim tenha sucedido.

Os onze filhos que teve o 1º Barão, estão todos perfilhados por cédula real de 23 de Dezembro de 1868. Da leitura da documentaçao, tudo leva a crer que 8 de esses filhos são irmãos de pai e mãe, pelo menos os nascidos depois de 1851...

Os 2 primeiros, são provavelmente também irmãos de pai e mãe, naturais de Benguela, onde o Barão se estableceu a partir de 1834/5, e chegou a ser Governador do Distrito.

De Benguela voltou para o Príncipe onde permaneceu entre 1843 a 1844. Estes dois filhos nasceram em 1835 e 1838 (D. Leonor e Manuel, respectivamente).

Em 1845 estava em Lisboa e é neste ano que nasce o 3º filho, Jacinto Carneiro de Sousa e Almeida, que foi o 1º Visconde de Malanza e que curiosamente vem a casar com a sua sobrinha, D. Pascoela Correia de Almeida, filha de D. Leonor. Ora, só se compreende este casamento se fossem meio irmãos aqueles dois, pois o graou de consanguinidade, se irmãos de pai e mãe, não permitiria esse casamento...De 1845 a 1850, o 1º Barão de Agua-Izé dedica-se a viajar pelas principais cidades Europeias, em companhia do célebre pintor e mestre de armas Henri Petit, figura bem conhecida em Lisboa da época. (tinha então João Maria 34 anos).Três anos depois, em 1853, regressou à sua terra, S. Tomé. - (Almada Negreiros, chama-o de distintissimo agricultor, no seu livro: Historia Etnografica da Ilha de São Tomé (1895).

O 1º Visconde de Malanza nasce em 1845, provávelmente em Lisboa, e logo o Barão vai de viagem, por 5 anos...

Em 1851, nasce Augusto Viana D´Almeida, que é baptizado na Igreja do Sacramento em Lisboa, fruto da sua ligação com D. Antónia Carolina da Rocha Guimarães, na altura solteira...

Logo seguem-lhe João Maria, 1856, nascido na freguesia de Santa Ana (Santana); Jesuíno Vidal da Rocha e Almeida, 1858, nascido também na freguesia de Santa Ana, (note- se que este já aparece com o apelido Rocha); Fortunato José da Rocha e Almeida, 1859, também natural de S. Tomé; Júlio César de Almeida, 1862, batizado na Igreja de Nsª Srª da Graça, em S. Tomé; D. Luzia Albertina de Sousa e Almeida, 1863, que nasceu também na freguesia de Nsª Srª da Graça, em S. Tomé... (aqui temos a certeza de que era filha de D. Antónia Carolina da Rocha Guimarães, por termos em posse uma certidão de nascimento que assim o confirma); Alberto da Vera Cruz e Almeida, 1864; António Carolino da Rocha e Almeida, 1865, baptizado na freguesia de Nsª Srª da Graça, em S. Tomé (a ninguém escapa a coincidência do nome da mãe e a do António) -No testamento que faz em 1889, em S. Tomé, o 2º Barão de Agua-Izé declara que: "Outrossim também possuo três quartas partes de uma casa na cidade, na rua do General Calheiros, que foi dos herdeiros de Dona Antónia Carolina da Rocha Guimarães. - Esta casa está em nome do senhor Francisco Roeder, mas pertence-me". fim de citaçao.- Todos os filhos nascidos posteriormente a 1851 são fruto da ligação com D. Antónia Carolina da Rocha Guimarães, que era filha de João da Costa Guimarães e de D. Jacinta Francisca da Rocha, baptizada na freguesia do Santissimo Sacramento do Rio e moradora na Calçada do Duque, 16 em Lisboa...Apenas fica a dúvida de se algum dia casou com D. Antónia Carolina, visto que, as crónicas dão como falecida em 30.6.1865, a D. Mariana Antónia de Carvalho, mulher legítima do 1º Barão, de quem não teve descendência, e que os filhos foram todos perfilhados em 12.5.1869, isto é, 4 anos após o falecimento da sua mulher e 5 meses antes de falecer.No que respeita ao 2º Barão de Agua-Izé, os mesmos autores que referemo seu pai como tendo descendência de muitas mulheres das suas roças, dizem exactamente o mesmo deste. Esta afirmação não parece digna de crédito.

No testamento de Manuel da Vera-Cruz e Almeida, 2º Barão de Agua-Izé, este refere o seguinte:

"Sou maior, proprietário e casado em segundas núpcias. Do primeiro matrimónio nâo tive filho algum, e do segundo existente tenho dois filhos menores de nomes Joâo Maria de Sousa e Almeida e Mário Armando da Vera-Cruz e Almeida, senhores e possuidores da fazenda".... e mais adiante diz:"Ortossim tendo dito que era casado em segundas núpcias, não dei o nome da Baronesa, que é Marion Sneyd e Almeida, mãe dos meus dois filhos João e Mário. Casados com separação de bens, tendo ela o seu dote, que é a roça situada na ilha do Príncipe, na importância de quinze contos de réis, mas que se acha hipotecada ao Banco Ultramarino." Fim de citação. Este testamento tem a data de 10 de Julho de 1889. No referido livro diz ainda que era viúvo de D. Faustina Maria da Conceiçao, natural do Principe, que faleceu em Lisboa (Benfica) em 1875, sem descendência. -Assim, também fica demonstrado que não há qualquer base verídica para se atribuir ao 2º Barão outra descendência que não sejam aqueles dois filhos. -

2 comentários:

  1. Fico feliz de ver retratado um pouco da biografia do Sr. Herculano Pimentel Levy (meu avô).

    Cumprimentos ,

    Mário Levy
    mariolevy@netcabo.pt

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  2. Caro Jerónimo,
    Sou de origem moçambicana. Vive muitos anos em Cabo Verde (entendo bem o crioulo de lá...).
    Vivi em Portugal Continental. Nos últimos anos estou na Madeira (Portugal). Onde, já "bastante adulto" decidi fazer um mestrado na Universidade da Madeira. A tese por mim proposta é sobre crioulos de Cabo Verde de São Tomé e Príncipe. A inspiração foi a Cesária Évora, canção "SODADE".
    Gostaria de contar com o seu apoio, como, por exemplo, Coorientador. "nypereira1@gmail.ccom"

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